Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

O Sentido do Amor...(2)

“Tentar converter o sexo em coisa banal, como se faz hoje em dia, é não perceber o encanto do percurso do amor.“


Para Jorge Bucay, “necessitamos do amor (tanto amar como ser amados), mas também é certo que se aprende a amar sendo amado e que se melhora a ‘qualidade’ e a maturidade da nossa forma de amar com a experiência vivida”.

Mas já “perdemos muitas das iniciações ao amor. As sociedades ocidentais perderam o sentido das iniciações”, alerta o filósofo José Rosa. E no campo do amor romântico isso é claro. “Tentar converter o sexo em coisa banal, como se faz hoje em dia, é não perceber o encanto do percurso do amor. Na realidade, isso é contra o amor e o próprio sexo, e acaba por privar os jovens do requinte de outros prazeres muito mais sublimes e realizantes.” O desejo desesperado de experimentar tudo, a necessidade de ter tudo à vista, ao alcance da mão, acaba por incapacitar para outras dimensões que requerem antecipação não realizada, sonho, devaneio. “Reside aqui a essência da pornografia: esventrar o sexo do seu fascínio, mecanizá-lo. Assim, sob a capa da liberdade, mata-se o encanto. Na margem entre o visto e o escondido, entre o ‘já’ e o ‘ainda-não’, está um mistério que vale a pena ser vivido. A espera pelo objecto amado tem o seu encanto e até o atingir é-se capaz de fazer muitas coisas belas.”

Para ilustrar o que diz, José Rosa lembra o diálogo entre a raposa e o Principezinho na obra de Saint-Exupéry. “Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito.”

Do lugar dos amores,
segundo Isabel Leal, psicóloga
1
Poucos são os que, de entre nós, conseguem o distanciamento suficiente em relação às ideologias dominantes e a um marketing frouxo mas bem propagandeado, ao serviço de interesses esclarecidos, que não iluminados. Moldados que somos em culturas que se transformam connosco, mudamos com elas na leveza das coisas conhecidas, opinativos e etnocentrados, tão para além do bem e do mal, tão afastados dos raciocínios que permitem a destrinça entre o trigo e o joio, que alegremente percebemos declarações de guerra para impor a democracia ou o afastamento de uma criança pequena, do seu meio e das pessoas que sempre conheceu, em nome do valor que é a não excisão.

2
Por cada fenómeno que percebemos há todos os outros que não percebemos. E não percebemos, definitivamente, o hábito, tão em voga em meio mundo, de as pessoas se casarem por arranjo familiar; de haver várias co-esposas de um só homem; de a maternidade e paternidade serem encaradas como afirmação de estatuto, feminilidade ou virilidade. Não percebemos, nem queremos perceber, outras culturas que andam por aí, nalguns casos há uns milhares de anos, que tratam as nossas crenças como umas entre outras. Central nesse repúdio mal assumido de outras formas de viver e sentir está a natureza do vínculo que nos liga, a nós pessoas, uns aos outros.

3
Penso que não será incorrecto resumir o nosso modo, ocidentalizado e urbano, de considerar o amor como o cerne de toda a vida social. Se, no outro extremo deste mesmo eixo, tudo compreendemos e tudo explicamos em função do dinheiro, neste lado de cá das razões que movem o mundo, parece que é o amor que serve, simultaneamente, de motivação e de justificação. Defendemos que as relações entre pais e filhos são relações amorosas, que é por amor que namoramos, casamos e procriamos, que o amor tudo salva e tudo redime. É por amor que namoramos, desenvolvemos actividade sexual, nos mantemos juntos e companheiros. E, inversamente, é pela falta de amor que tudo isso se eclipsa e se esvai.

4
Claro que sabemos que o amor é apenas a designação genérica dos diferentes tipos de vínculos que desenvolvemos com as pessoas que nos rodeiam e com algumas que vamos encontrando vida fora. Sabemos que, sobretudo, às ligações e às atracções que se constroem sobre o sexual, tendemos a considerá-las como de uma qualidade diferente de amor: o amor romântico, uma espécie, especial e única, que nos entreabre as portas do mito e nos transforma em Tristões e Isoldas, que é como quem diz, figuras de um panteão dos deuses menores que atravessam os tempos.

5
Porque é que a experiência da paixão e a sua elegia se foram transformando em bens de consumo e divulgando como possibilidade acessível a todos, sem estigma nem punição, não encerra sequer grande enigma. Como seres centrados no Eu e viventes empenhados nos nossos mitos privados somos, seguramente, cidadãos mais despreocupados, mais distraídos e pouco consequentes. As estratégias dos poderes, hoje como sempre, usam-nos de forma sapiente. Esta, a do direito e dever ao amor e à paixão, é com certeza a mais sofisticada de todas. Mas disso, só se falará com propriedade nos séculos vindouros.

O amor é uma questão central da nossa vida. “É o verdadeiro motor das relações interpessoais e, para muitos de nós, o sentido último da essência social da humanidade”, comenta Jorge Bucay.
Mas se a nossa capacidade de amar é o resultado das relações mais precoces que vivemos, a forma como encaramos e vivemos o amor é o resultado da cultura em que nos inserimos.

A filosofia tem dedicado muito do seu tempo a pensar o amor. E, neste sentido, a nossa cultura e o pensamento ocidental são fortemente marcados pelo pensamento grego e pela visão dada pelo mundo judaico-cristão. “Podemos dizer que o pensamento grego sobrevaloriza a carência e, por isso, sobredetermina o Eros numa relação com qualquer coisa que o pode preencher”, explica José Rosa. Nesta visão, o amor busca algo que lhe falta.

O amor é uma iniciação à sabedoria na visão de Platão, uma das referências fundamentais para a filosofia quando se trata da questão do amor. “Em O Banquete (Guimarães Editores), o discurso de Diotima revela claramente este propósito de iniciação à contemplação da estrutura mais decisiva da realidade, à contemplação da ideia. E se há em Platão o sentido do amor dos corpos belos, isso é apenas um momento para um outro momento, o da passagem do amor do corpo belo para a alma bela, e da alma bela para a ideia de Beleza, o nível mais fundamental para Platão”, refere o filósofo.


“Temos dificuldade em encontrar o acerto justo entre o receber e o dar. Tornamos as nossas relações infernais.”


Os deuses são incapazes de amar, mesmo que possam invejar os mortais, ser-lhes propícios ou adversos. É o que defende a perspectiva grega. “Não podem amar porque são perfeitos. Entender o amor como o preenchimento de uma carência obriga a que um ser que não tem carências não possa amar. Isto seria rebaixarem-se. Ao invés, podem e devem ser objecto de amor, de desejo e de piedade.”

Já na visão do amor dada pelo mundo judaico-cristão, Deus cria o mundo, os homens, a diversidade, porque é bom “e não quer que uma boa criação não venha a ser, a existir”. “No livro do Génesis (1,31), afirma-se que ‘Deus viu todas as coisas e eram muito boas’.” O amor de Deus é o sentido da sua generosidade. Deus não cria porque precisa, como nas gnoses, mas sim porque naturalmente se dá, dá, e é em si pura doação. “Trata-se de uma visão em que é o Ágape, e não o Eros, que está no centro. Ágape é generosidade (em latim, caritas), o amor dádiva, o amor oblativo, não o amor possessivo, captativo, que se coloca sempre no centro. E nesse sentido, poderíamos dizer: a essência da religião cristã diz que Deus é amor”, refere o filósofo. E o amor aí já não está em receber, mas em dar. A essência do amor é a benevolência, é o querer bem.

“Vivemos dramaticamente estas duas dimensões do amor. E temos dificuldade em encontrar o acerto justo entre o receber e o dar, e por isso tornamos, por vezes, as nossas relações infernais”, comenta José Rosa. “Muitos de nós sentimos isso porque não tivemos a experiência de nos sentirmos radicalmente amados, até às fibras mais profundas. Esta experiência muda-nos por completo e percebemos que não é uma coisa má nem terrível. E que não precisamos de abrir mão nem de nós nem do nosso desejo, da nossa auto-estima, mas apenas de reorientar as suas forças, de pôr ordem no amor”, como gostava de dizer Santo Agostinho. Uma vez orientado o amor, há uma coordenação positiva entre o amor do mundo (amor mundi), o amor de si mesmo (amor sui) e o amor de Deus (amor Dei), afirmava ainda Santo Agostinho.

E o que é que u ma pessoa pode fazer para se sentir amada até à última fibra? “Deixar-se amar”, explica. “Na leitura judaico-cristã, nós não somos o princípio do amor. A existência do ser exprime ela própria um acto de amor, de superveniência. E, portanto, nós não somos fiéis connosco próprios se não nos deixarmos amar. Tecemos sobre nós muitas teias e não percebemos uma coisa tão simples na vida do amor: que nós não somos amáveis pelo que há de melhor em nós, pelas nossas melhores qualidades, pelas virtudes, pela beleza. O que há de mais amável em nós, mais digno de amor, é o nosso lado escuro, o lado das imperfeições. E por isso nós muitas vezes não nos deixamos amar no exacto momento em que fazemos tudo para ser amados. Isso é uma espécie de drama.”

Santo Agostinho experimentou este drama de forma muito profunda, como se pode ler nas suas Confissões. Andou à procura do amor onde ele não existia. Buscou a fama e a glória. E alcançou. Pelo caminho, deu asas aos seus desvarios sexuais pelas ruelas de Cartago. “E quanto mais respondia a este desejo, dando-lhe o que ele imediatamente queria, mais sentia que a resposta não o satisfazia. É que o desejo segue uma espécie de ciclo infernal que vai num crescendo e nunca atinge a completa saciedade. O amor, por sua vez, tem uma lógica de pacificação”, afirma o filósofo.


“Só pode haver amor na liberdade. O amor quer o outro livre. Não o aprisiona, não o chantageia.“


Santo Agostinho veio depois a viver com uma concubina da qual teve um filho. E a certa altura, declara: “Não vos digo que não ameis. Pensais que vos digo que não ameis? Não, não! É preciso amar. Amem muito! Amem muito, amem com força. Mas digo-vos: ordenai o vosso amor.”
Segundo José Rosa, este ordenar é conhecer-se a si próprio e aos seus desejos, e querer tudo na medida exacta. Não amar aquilo que não pode ser objecto de amor. Não se apegar infinitamente àquilo que não pode responder infinitamente. “Só assim é que se é livre. Só assim é que não nos parasitamos uns aos outros”, comenta. “Querer infinitamente uma criatura, uma pessoa, não só perverte o amor, a consciência e subjectividade amantes, como perverte o objecto amado. E aí é interessante ver o que acontece ao nível das estrelas pop: serem objecto de idolatria por parte dos fãs altera-lhes completamente a consciência. Não têm estatuto para ser adorados. Ficam ‘ex-cêntricos’, isto é, sem centro de gravidade, incapazes de reconhecer a realidade.”
As faces do amor
Philia. É o sentimento que nos impele a amar os nossos parentes mais chegados. Existe naturalmente entre os amigos e nas famílias.
O amor que os pais sentem naturalmente pelos filhos e vice-versa.

Eros. É aquele amor romântico que uma pessoa sente por outra. É o amor que tem muito a ver com atracção física. É esse tipo de amor que normalmente compele as pessoas a manter um relacionamento amoroso continuado. Nesse sentido, também é sinónimo de relação sexual.

Pragma. Como diz o nome, este estilo de amor dá prioridade ao lado prático das coisas. O indivíduo avalia todas as possíveis implicações antes de embarcar num romance. Se o namoro aparente tiver futuro, ele investe. Se não, desiste. Cultiva uma lista de pré-requisitos para
o parceiro ou a parceira ideal e pondera muito antes de se comprometer.

Ágape. Em grego, significa altruísmo, generosidade. A dedicação ao outro vem sempre antes do próprio interesse. Sente-se bem quando
o outro demonstra alegria.

Storge. É o nome da divindade grega da amizade. Por isso, quem tende a ter esse estilo de amor valoriza a confiança mútua, o entrosamento e os projectos compartilhados. O romance começa de maneira tão gradual que os parceiros nem sabem dizer quando exactamente. A atracção física não é o principal. Os namorados-amigos não tendem a ter relacionamentos calorosos, mas sim tranquilos
e afectuosos.
publicado por Paula Valentina às 15:59

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