Sábado, 29 de Setembro de 2007

(D.H. Lawrence - 1885 ~ 1930)



A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

publicado por Paula Valentina às 03:32

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O Amante de Lady Chatterley / D. H. Lawrence





"O guarda a conduziu para um recesso recoberto por folhas secas, que amontoou e forrou com seu casaco. Aí fê-la deitar-se como um animal, e, de pé diante dela,de blusa e culote, Mellors a contemplou com os olhos dilatados de desejo. Desceu-lhe em seguida as roupas de baixo, arrebentando o que não podia desatar, porque Constance, imóvel, não o ajudava. E como também ele se houvesse despido na frente, houve um perfeito colamento de epidermes, ao dar-se a penetração.

Mellors penetrou-a e ficou imóvel dentro dela, túrgido e palpitante, até perceber o começo do orgasmo de Constance - e não ritmou os movimentos de vai-vem. Fremente como o palpitar de uma chama, leve e macia como uma pluma, as entranhas de Constance começaram a derreter-se lá dentro. Era como o som de um sino, que de vibração em vibração sobe do vago ao apogeu. E Lady Chaterlley não teve consciência dos gritinhos que dava, que deu até o fim. Fim da parte dele, apressado demais, sobrevindo antes que ela acabasse – e Constance não podia acabar sozinha.

Daquela vez tudo era diferente. Por si nada podia fazer. Não podia retesar-se para mantê-lo dentro de si até que o gozo sobreviesse. Só podia uma coisa: Esperar. Esperar mentalmente e gemer ao sentir que ele se retraía, já próximo a escapar de sua sucção. E como a anêmona do mar flutuante sobre a onda, suas entranhas abertas e macias clamavam por ele outra vez, que viesse satisfazê-la. E a ele agarrava-se no delírio da paixão inconsciente, e não o deixava arrancar-se dela.

Finalmente sentiu que o broto do homem estremecia de novo dentro de sua carne, e recrescia em ritmos estranhos até ocupar todo o vácuo de sua consciência. E o inefável movimento recomeçou - movimento que não era movimento - mas um puro e profundo turbilhão de sensações que vibravam e mergulhavam mais e mais no íntimo de uma carne fundida, até torná-la um rebojo concêntrico de sensações a esguichar instintivos urros inarticulados. Foi com terror que nas travas do recesso, o homem ouviu aquele grito de vida ressoante debaixo dele, e dentro dela derramou em jatos sucessivos a sua semente cálida. Fim. Foram esmorecendo os gritos e convulsões de Constance, e ele também esmoreceu, quedando-se perfeitamente imóvel em cima dela, sem nada pensar, sem nada saber. Constance relaxou o aprisionamento da carne masculina e também descaiu inerte. E lá ficaram os dois, perdidos, largados, sem sequer ter consciência um do outro.”
(D.H. Lawrence)
I-INTRODUÇÃO

No presente trabalho analisaremos a obra "O Amante de Lady Chatterley" de D.H.Lawrence. Quando foi publicado pela primeira vez na Inglaterra, o livro despertou
uma grande polêmica. Acusado de pornográfico, ficou proibido naquele país por três décadas. Apesar disso, foi traduzido e publicado em diversos países. Antes mesmo de ser reabilitado na Inglaterra foi reconhecido como um marco na história da literatura inglesa. Por isso, seu estudo é indispensável.

Ao longo do presente trabalho procuraremos demonstrar que ela não é pornográfica, que a
proibição de "O Amante de Lady Chatterley" na Inglaterra deve ter ocorrido em razão de outros motivos (provavelmente políticos). Para tanto faremos uma criteriosa análise da obra
a partir de seus elementos constitutivos, especialmente da linguagem empregada.

Feitas estas advertências iniciais, advertimos o leitor que ao adentrar no universo criado por D.H.Lawrece deverá deixar do lado de fora seus preconceitos. Senão, não será capaz de
compreender o valor literário da obra.


II-BIOGRAFIA


David Herbert Lawrence nasceu em 1885 em Eastwood, perto de Nottingham. Filho de um homem
rude que se entregava a bebedeiras e uma ex-professora muito refinada, Lawrence cresceu
num ambiente de conflitos conjugais.

A carreira escolar de David foi exemplar. Na escola secundária de Nottingham foi premiado em matemática, francês e alemão. Logo passou a dominar também o italiano e o espanhol.

Aos dezessete anos pegou uma pneumonia que arruinou sua saúde. Pelo resto da vida Lawrece
teria que lutar contra a tuberculose. Foi durante a convalescença que começou a escrever e a aperfeiçoar seus conhecimentos literários. Durante este período manteve uma ligação
platônica com Jessie Chambers.

Em 1902 tornou-se mestre-escola. Em 1905 foi admitido na Universidade de Nottingham e
começou a escrever seu primeiro romance, O Pavão Branco, sendo obrigado a interromper o trabalho.
Em 1908 Lawrence parte para Croydon, onde assume um posto na escola primária. Lá conquista a confiança dos colegas e retoma o romance inacabado. O Pavão Branco é publicado em 1911 e
Lawrence conquista seus primeiros admiradores: George Eliot e Thomas Hardy.

Em 6 abril de 1912 Lawrence conhece Frieda von Richtofen, esposa de Weekey. Em 03 de maio,
menos de um mês depois, eles partem juntos para Metz, na Alsácia Lorena. Pouco depois o casal
parte para a Itália, onde fixa residência. No dia 08 de junho de 1914, depois de receberem a notícia de que Weekley concedeu o divórcio, Lawrece e Frieda partem para Londes, onde se
casam aos 13 de junho daquele mesmo ano.

Com o início da I Guerra as coisas se complicam. Frieda é posta sob vigilância e
Lawrence passa a ser humilhado. O casal refugia-se no campo e passa por dificuldades
econômicas. Seu novo livro, The Rainbow, é condenado e apreendido alguns meses mais tarde.

Instalados na Cornualha, Lawrece e Frieda são acusados de espionagem e expulsos de lá no fim de 1917. Retornam a Londres. A guerra chegou ao fim mas o casal continua vigiado em virtude das declarações do escritor no sentido de que o conflito foi o suicídio da Europa. Em 1919 viajam para Itália, mas são mal recebidos em Roma. Passam por Capri e Taormina, na Sicilia, onde ficam dois anos intercalados por uma longa viagem para a Alemanha, Áustria e Itália de abril a
setembro de 1921.

Ainda em 1921, sob encomenda da Oxford University Press, Lawrence escreve Movimentos na
História da Europa. O livro é publicado sob o pseudônimo de Lawrence H. Davidson em razão da violenta crítica ao romance Mulheres Apaixonadas também de sua autoria.

Ceilão, Austrália, Novo México, EUA o casal Lawrence e Frieda perambula pelo mundo. Nesse
período o escritor estuda Freud e Jung e escreve Psicanálise e Inconsciente, sua visão pessoal e sem rigor científico das teorias de Freud e discípulos .

O Amante de Lady Chatterley foi publicado em 1928. Criticado pela imprensa inglesa,
o romance foi proibido na Inglaterra. A proibição duraria 32 anos. Com a saúde abalada, o escritor é levado para a ilha de Port-Gross pelo amigo Richard Aldington. Em março
de 1929 viaja para Paris instalando-se na casa do amigo Aldous Huxley e conseguindo
publicar uma versão popular do romance. A saúde de Lawrence piora. Depois de passar
alguns dias com Huxley na Ligúria, parte para Florença. Logo depois parte para o
sanatório de Vence, onde falece aos 02/03/1930 com apenas 44 anos.


III- RESUMO DA OBRA


Constance, uma mulher educada com liberdade e que teve sua primeira experiência sexual antes do casamento, casa-se com um aristocrata conservador. O relacionamento sexual do casal é insatisfatório e dura pouco tempo. Logo depois do casamento Clifford vai para a guerra e retorna aleijado e impotente.

Após a convalescença do esposo, o casal retorna a Wragby Hall, a mansão do baronete próxima de suas minas de carvão. A atmosfera local, a impotência do marido, oprimem de tal maneira Lady Chatteley que ela acaba envolvendo-se com um escritor que freqüentava os sarais literários patrocinados pelo marido. Todavia, Michaelis sofre de ejaculação precoce, trata-a sem carinho e ela afasta-se dele.

Lady Chatterley adoece, vai tratar-se em Londres e retorna a Wragby Hall. Como Clifford acostumou-se à companhia da enfermeira contratada para cuidar dele na ausência da esposa, Lady Chatterley começa a passear na floresta encontrando Mellors. O guarda caça de Clifford tenta mas não consegue evitar qualquer tipo de intimidade com a patroa. Em pouco tempo a senhora de Wragby e o empregado passam relacionar-se afetiva e sexualmente. O amor entre ambos rapidamente cresce em intensidade. À medida que Constance afasta-se de Clifford ele vai se tornando mais intimo da Sra. Bolton.

Constance engravida de Mellors e a Sra. Bolton insinua na vila que o filho não é do seu esposo. Antes do escândalo tomar corpo, Lady Chatterley viaja com a irmã e o pai para Veneza, onde deveria tomar um amante e engravidar para dar um herdeiro ao baronete. Isto é feito com a expressa autorização de Clifford. Mellors a princípio não concorda com a simulação mas cede aos desejos da amante para manter as aparências, pois tem receio que descubram o relacionamento entre ambos.

Enquanto Constance está fora o circo pega fogo. A esposa de Mellors retorna para cabana disposta a retomar o casamento e é rejeitada. O guarda-caça refugia-se na casa da mãe e Constance é avisada por Clifford e pelo amante. Mellors discute com Clifford sendo despedido. Lady Chatterley retorna a Londres para encontrar o amante e depois dirige-se a Wragby a fim de comunicar ao marido que pretende separar-se dele. Clifford recusa-se a conceder o divórcio à esposa. No final os dois casais tem destinos bem diferentes.

Clifford e a Sra. Bolton dividem o mesmo espaço e mantém um relacionamento afetivo similar ao de mãe e filho. Constance e Mellors guardam distância para manter as aparências até estarem em condições de assumir definitivamente seu relacionamento.


IV- ESTRUTURA DA OBRA


Para fins didáticos, toda obra literária pode ser dividida. No presente trabalho optamos pela técnica referida por Yves Reuter, Introdução à Análise do Romance, Martins Fontes, 1ª edição, 1996 .

Estado inicial Clifford e Constance levam uma vida sem sobressaltos em Wragby. O baronete, que ficou aleijado em virtude de um ferimento de guerra, dedica-se à literatura e aos saraus literários com escritores que freqüentam sua mansão. Constance, que já tinha experiências sexuais antes do casamento, envolve-se com Michaelis, mas logo abandona o escritor em virtude da frustração. Adoece, viaja para Londres onde submete-se a tratamento, retorna à propriedade do marido e começa a afastar-se dele. (Cap. 1 a 9)

Complicação Em seus passeios pela floresta, Constance reencontra o guarda-caça Mellors, um homem solitário que procura levar uma vida tranquila longe das mulheres. A princípio ele resiste aos encantos de Lady Chatterley, mas como ela insiste em visitar a cabana onde ele cuida dos faisões do marido ocorre o inevitável. Em pouco tempo os dois acabam por se tornar amantes (Cap. 10).

Dinâmica À medida que o amor de Constance e Mellors aumenta, Clifford passa a ter mais intimidade com a enfermeira contratada para cuidar dele. Constance engravida de Mellors e, com a autorização do marido, viaja para Veneza a fim de arrumar um amante para dar um herdeiro ao baronete. Clifford ainda não sabe que seu empregado será o verdadeiro pai da criança. Mellors resiste à idéia da amante de evitar que o esposo saiba que ele é o pai da crianca, mas acaba cedendo. A Sra. Bolton espalha na vila que Lady Chatterley está grávida e tem certeza de que Clifford não será o pai. Enquanto Connie está viajando o escândalo toma corpo e Mellors é despedido (Cap. 10 a 18).

Resolução Constance decide separar-se definitivamente de Clifford, retorna a a Wragby para pedir o divórcio. Todavia o marido recusa-se a concedê-lo ao saber que o amante dela é o guarda-caça (Cap. 19)

Estado final Constance volta para a Escócia na companhia da irmã. Em Londres, Mellors aguarda o divórcio da esposa para poder unir-se definitivamente à amante. (Cap. 19)


V- PERSONAGENS


PROTAGONISTAS

Constance "...era uma jovem com a saúde das camponesas, corpo vigoroso, movimentos lentos, cabelos escuros e caráter bastante enérgico. Olhos grandes e curiosos, voz macia - dava idéia de recem-chegada da aldeia natal." (Cap. 1)

"Seios pequenos, levemente caídos, na forma de pêra, dando ar de imaturos e tristes por falta de significação. Seu ventre perdera o arredondado fresco e brilhante da juventude, do tempo do moço alemão que a havia verdadeiramente amado. Seu corpo era naquele tempo jovem e cheio de promessas de personalidade. Agora afrouxava. As coxas também, outrora tão ágeis e móveis em suas curvas femininas, perdiam a graça esgalgada." (Cap. 7)"

Connie é oriunda de uma família abastada. Teve uma educação livre e conheceu o amor físico antes mesmo do casamento. A intimidade entre ela e seu primeiro namorado foi maior que a que tinha com o esposo:-

"E deram-se cada um ao rapaz com quem mais ardorosamente debatiam sobre o amor. A discussão era o principal; o amor físico não passava de uma espécie de retorno ao instinto, espécie de reação." (Cap. 1)

"A intimidade entre dos dois lembrava a de passageiros dum navio que vai indo ao fundo." (Cap. 1)

"Havia e não havia intimidade entre ambos. Havia intimidade espiritual, mas nenhuma corporal. Eram íntimos que não se tocavam." (Cap. 2)

Constance sente-se infeliz em razão da impossibilidade de realizar-se sexualmente no casamento. Apesar disso, é uma mulher muito segura. O bastante para receber Michaelis na saleta do terceiro andar de Wragby criando as condições para o escritor possuí-la (Cap. 3) e para visitar a cabana em que Mellors cuidava dos faisões possibilitando o envolvimento entre ambos (Cap. 10). Nas duas oportunidades Connie aproveitou-se da impossibilidade do esposo seguí-la para conseguir o que desejava.

Ao longo da narrativa a conduta de Constance se modifica sensivelmente. Até envolver-se sexual e emocionalmente com Mellors, Lady Chatterley não havia tido um relacionamento pleno com um homem. Quando o consegue afasta-se progressivamente do marido até abandoná-lo para ficar definitivamente com o amante. Ela é, portanto, uma personagem redonda.

Mellors "... Tinha qualquer coisa de Tommy Dukes, pensou Constance." (Cap. 5)

"...Não era muito vigoroso. "Mas bastante cheio de vida e rijo", advinhou o instinto feminino de Constance." (Cap. 4)

Mellors difere de todas as outras personagens masculinas. Filho de um mineiro, casou-se muito jovem, teve uma filha e separou-se partindo para as Colônias onde chegou a tenente do Exército (Cap. 8/14). Após a morte do Coronel que nomeou-o oficial, retornou para Tevershall e empregou-se como guarda-caça de Clifford. Homem solitário, avesso ao convívio social, procura levar uma vida sem sobressaltos junto a natureza. Mellors dá pouco valor ao dinheiro, desdenha tanto as classes alta e média quanto a classe operária, procurando levar uma vida pautada nos ideais estóicos (Cap. 10). A princípio, não pretende envolver-se com mulher alguma.

"Mellors não desejava de maneira alguma entrar em contato com uma mulher, tanto os contatos anteriores lhe abriram na alma feridas difíceis de fechar. Se não pudesse ficar completamente só no mundo, certamente morreria. Desligara-se em absoluto do mundo exterior. Seu último refúgio era a floresta - era aquele esconder-se dentro das árvores." (Cap. 8)

Não era um homem muito requintado ou bonito, mas muito atraente:-

"Nudez perfeita, pura, solitária, dum ser que vive só e sempre consigo mesmo. Além disso, uma certa beleza pura. Beleza não, talvez, mas a irradiação, a chama quente, branca, de uma vida solitária a revelar-se em contornos que podiam ser tocados: um corpo." (Cap. 6)

Sincero, Mellors chega a ser indelicado. Não sem uma pitada de ironia. Apesar de dominar perfeitamente o inglês, prefere usar um dialeto vulgar.

"Constance olhou-o nos olhos, procurando compreender o que ele dizia naquele nevoeiro de dialeto.
-Por que não fala inglês como toda gente?
-Eu? Julgo que falo o inglês de toda gente." (Cap. 8)

"-Por que fala nesse patoá de Yorkshire?
-Não é de Yorkshire, é o de Derby - respondeu Mellors, com seu sorriso irônico e distante.
Pois seja, por que fala nesse patoá de Derby? No começo recebeu-nos com o inglês de toda a gente.
-Sim? E não posso mudar, se isso me apraz? Não, não. Deixem-me falar no patoá de Derby, se isso me dá gosto. Creio que não há objeções contra.
- Parece-me um pouco afetado - disse Hilda.
-Talvez. Mas em Tevershall seria a senhora a afetada." (Cap. 16)

Ao contrário de Mick, em matéria de amor Mellors não é exigente. Aceita o que Constance pode proporcionar-lhe:-

"As palavras de Mellors não a consolaram. Os seus soluços aumentaram.
-Não, não - disse ele. - Temos de aceitar o trigo e a palha. Desta vez tivemos a palha." (Cap. 12)
Mellors também é uma personagem redonda. A princípio recusa-se a ter qualquer envolvimento com uma mulher e prefere viver isolado. Depois de conhecer Constance passa a relacionar-se sexual e afetivamente com ela passando a encarar a vida em sociedade com um pouco mais de otimismo.

ANTAGONISTA

Para consumar sua união os protagonistas tem que vencer as convenções sociais. Logo, o antagonista não é um personagem claramente identificável, mas as referidas convenções sociais.

PRINCIPAIS

Clifford "Mostrava-se, porém, cheio de vivacidade, jovial, quase alegre, de tez fina, aspecto geral de saúde, olhos azuis, brilhantes e provocadores. Trajava-se com apuro, sobretudo nas gravatas. Apesar disso tinha o olhar tresnoitado e o ar ausente dos estropiados." (Cap. I)

"...era o tipo do homem varonil, de ombros largos, tez quente. Sua voz tranqüila e seu olhar às vezes cheio de audácia revelavam-lhe a natureza íntima. Mas nos modos oscilava entre hostilidade orgulhosa e humildade quase tímida." (Cap. 2)

Clifford é um homem rico e poderoso. Senhor de Wragby, da mina e da vila, casou-se com Constance e logo depois foi para a guerra retornando mutilado. Sua ligação com a esposa tem importância apenas espiritual (Cap. 4). E não poderia ser de outra forma pois ele ficou impotente e preso a uma cadeira de rodas em virtude da mutilação. Após recuperar-se das lesões, passou a dedicar-se à literatura chegando a fazer sucesso apesar de ser um escritor menor:-

"Clifford tinha a habilidade literária de analisar com humorismo as gentes, dissecá-las, descobrir o motivo das ações humanas e por fim reduzir tudo a pedaços. Mas não é isso o que os cães de luxo fazem com as almofadas? Só que não era novo e nada tinha de travessura; antes, estranhamente velho e obstinadamente vaidoso." (Cap. 5)

Incentivado pela Sra. Bolton, Clifford abandona a literatura e entrega-se de corpo e alma à administração da mina (Cap. 9). O baronete é tradicionalista, aristocrático, capaz de admitir que a esposa tenha um filho de outro homem:-

"-Seria quase desejável que você tivesse um filho de outro homem..." (Cap. 5)

O baronete mantém sua conduta infantil do início ao fim da narrativa. Trata-se de uma personagem rigorosamente plana.

Sra. Bolton "... era uma criatura muito atenciosa, que falava com bastante sotaque um inglês pesadamente correto e, pelo hábito de tratar crianças durante anos, adquirira ótima opinião sobre si mesma e muita convicção. Uma respeitabilíssima representante da classe dirigente da aldeia." (Cap. 7)

"...tinha este curioso gosto pela dominação, essa infinita urgência de afirmar-se, que é um dos signos da loucura nas mulheres modernas. Julgava-se devotada de corpo e alma aos outros." (Cap. 8)

"...Gostava dos mineiros, dos quais tratara muito tempo; mas sentia-se muito superior a eles. Sentia-se quase da classe alta..." (Cap. 7)

A enfermeira contratada para cuidar de Clifford ficou viúva há vinte e dois anos (Cap. 7). Tem duas filhas adultas e acredita que todos os homens não passam de bebes (Cap. 9). Rapidamente conquista a confiança e a atenção de Clifford, que passa a sentir-se muito a vontade em sua companhia:-

"A Sra. Bolton fazia tudo para Clifford, o qual se sentia mais a gosto com ela do que com a esposa..." (Cap. 9)

Nas entrevistas com o baronete, Sra. Bolton entrega-se de corpo e alma a sua atividade predileta:- fofocar sobre a intimidade dos habitantes de Tavershall (Cap. 9). É ela que espalha a notícia de que Constance estava grávida levantando suspeitas quanto a paternidade da criança:-

"... Vieram as amigas vê-la, a professora da escola, a mulher do farmacêutico, a Sra. Weedon, a mulher do contador. Depois de muito admirado e gabado aquilo, a conversa recaiu sobre Lady Chatterley - no filho que ia ter.
Mas a Sra. Bolton estava convencida de que, se tal milagre sobrevisse, não seria obra de Sir Clifford. Evidente..." (Cap. 11)

Apesar de seus defeitos, a enfermeira é dona de um interessante bom senso. Quando Clifford pergunta a ela se existem muitos bolchevistas na aldeia ela responde:-

"... Os moços inclinam-se um pouco, mas só na superfície. Tudo quanto querem é dinheiro para o cabaré e as corridas. Só quando não têm dinheiro é que vão ouvir os belos discursos dos vermelhos. Mas, no fundo, ninguém crê nisso." (Cap. 9)

"...Por isso não vejo como possa vir o bolchevismo, porque tudo quanto os moços querem é dinheiro para diversões, roupas... e o mesmo se dá com as moças." (Cap. 9)

Ao contrário do cinismo de Mick, do sensualismo intelectual de Dukes, do estoicismo de Mellors e do conservadorismo de Clifford, a Sra. Bolton tende a manter um certo cepticismo.

"... Parece que muito cedo os homens não terão vez na face da terra. Tudo serão máquinas. Mas dizem que isso é o que o povo dizia quando teve de renunciar às antigas instalações industriais. Eu me lembro de uma ou duas. Mas parece que, quanto mais máquinas, tanto mais gente. Dizem que se podem tirar do carvão de Tevershall os mesmos produtos de Stacks Gate; é engraçado, Stacks Gate não dista nem três quilômetros daqui. Mas é o que dizem." (Cap. 9)

A Sra. Bolton trata os homens como se fossem crianças durante toda obra. Sem dúvida alguma é uma personagem plana. Optamos por considerá-la uma personagem principal por um único motivo. Ela forma com Clifford o casal doentio que rivaliza com o saudável casal Mellors/Constance.

SECUDÁRIAS

A princípio, devemos alertar que todas as demais personagens da obra são planas. Suas condutas são invariáveis.

Sir Malcolm "...cheio de corpo, mas não muito. Coxas fortes, sólidas e ainda ágeis; coxas dum homem que não recusava nenhum prazer da vida. Seu egoísmo, seu bom humor, sua tenaz necessidade de independência, sua insaciável sensualidade - tudo ela como que via em suas coxas ágeis e firmes. Um homem de verdade! Mas envelhecia, o que era muito triste. Mas em suas pernas vigorosas, espessas, másculas, havia algo desse vivo poder de emoção e ternura que é a própria essência da mocidade e não se apaga nunca." (Cap. 17)

O pai de Connie é um homem sensual e aberto. Proporcionou uma educação livre à filha e até sugeriu-lhe que tomasse um amante para compensar a incapacidade de Clifford de amá-la:-

"- Por que não procuras um amante, Constance?" (Cap. 3)

Michaelis "...não era inglês. Nada nele afinava com o inglês verdadeiro, nem seu rosto pálido, nem seu rancor de alma. Michaelis era todo ressentimento e rancor, o que não escapava aos olhos advertidos dos gentlemem que timbram em não deixar transparecer seus sentimentos. Mas o pobre Michaelis havia recebido muitos pontapés, circunstância que lhe dava aqueles modos de rabo entre as pernas. Rompera caminho unicamente levado pelo instinto; a desfaçatez cínica o pusera na frente do palco." (Cap. 3)

O primeiro amante de Lady Chaterlley é um homem atirado, cínico e dissimulado. Escritor de sucesso, a convite de Clifford passou a freqüentar Wragby. Aproveitou-se da primeira ocasião que teve para manter relações sexuais com Lady Chatterley na casa do amigo, o qual depois encarou como se nada tivesse acontecido. Entretanto, Michaelis tinha um defeito terrível:-

"... Tinha o coito muito rápido, acabava depressa e abandonava-se sobre seus seios, deixando-a desapontada, perdida." (Cap. 3)

Apesar de refinado e polido, Mick é exigente, grosseiro e cruel. Além disso, é incapaz de admitir suas própria deficiências:-

"-Todas as mulheres são as mesmas - disse por fim. - Ou não gozam, comos e fossem estátuas, ou esperam que o homem "acabe" para só depois gozarem... e o macho que fique à sua disposição. Jamais encontrei mulher que gozasse juntamente comigo." (Cap. 5)

Tommy Dukes "...ficara no Exército e já era brigadeiro." (Cap. 4)

Dukes é amigo de Clifford e participa dos saraus literários em Wragby. É culto e valoriza mais a contemplação do que a especulação fisolófica:-

"...Vêde Sócrates e seus amigos, nos diálogos de Platão. Quanta perversidade, que alegria em ferir o próximo, fosse qual fosse o adversário: Protágoras ou qualquer outro! E Alcebíades, e todos os discípulos menores, congregados para o estraçalhamento! Vale muito mais Buda, tranqüilamente à sombra da figueira, ou Jesus contando aos seus discípulos histórias singelas, calmamente. Não, há qualquer coisa de radicalmente falso nessa vida mental que mergulha as raízes no despeito e na inveja. Temos de julgar a árvore pelos seus frutos." (Cap. 4)

Apesar disso, o brigadeiro admite que o sexo tem uma importância crucial nas relações entre homens e mulheres:-

"...A verdadeira ciência emana do conjunto do nosso ser consciente, do nosso ventre e do nosso pênis, tanto quanto do nosso cérebro e do nosso espírito." (Cap. 4)

Lady Chatterley chega a interessar-se por ele mas nada ocorre entre ambos. O militar relaciona-se bem com o sexo apenas intelectualmente. Não tem paixão e é incapaz de agir:-

"- Será que eu pertenço a essa classe?
-Sim. E você bem sabe que não nos vem a tentação do beijo.
....................................................................................................................
-Claro. Por menos macho que seja não encontro nunca uma fêmea da minha espécie. E mulheres não faltam... mas apenas me agradam, eis tudo. Quem poderá forçar-me a amá-las ou a fingir amor, fazendo o jogo do sexo?" (Cap. 6)

Leslie Winter "Um velho gentlemam enriquecido com o carvão no reinado de Eduardo, o qual viera mais duma vez caçar ali. Solteirão, vivia Winter num explêndido castelo muito bem tratado, mas sitiado pelas minas. Gostava de Clifford, embora vexasse de vê-lo na literatura, com o retrato nos jornais. Um dândi da escola do Rei Eduardo, para o qual a vida era a vida e escrever, uma tolice. Muito galanteador de Lady Chatterley. Achava-a encantadora, virginal, reservada, excelente para um homem que não era homem." (Cap. 10)

O padrinho de Clifford é um velho aristocrata conservador que acredita nas teorias racistas em voga no início do século:-

"... Pensar que o meu Clifford está reconfortado pela esperança de um filho! E que um dia poderá dar trabalho a toda gente de Tevershall. Ah! meu caro, manter o nível da raça e proporcionar trabalho para todos, que maravilha." (Cap. 11)

Winter morre logo depois e seu castelo é demolido e a propriedade loteada e vendida. Sua morte e a demolição de Shipley simbolizam a morte da velha Inglaterra e o nascimento da nova Inglaterra.

Hilda "... como uma Palas corada e fresca, pendeu a cabeça e refletiu. A cólera que lhe tumultuava lá no fundo não ousava subir à tona, tanto era conhecedora do temperamento agressivo da irmã, igual ao de Sir Malcolm. (Cap. 16)

A irmã de mais velha de Constance é voluntariosa. Levou-a ao médico contra a vontade de Clifford (Cap. 7) e, apesar de contrariada, ajudou Lady Chatterley a encontrar-se com Mellors na cabana (Cap. 16) . Hilda separou-se do marido e não quer mais saber de sexo (Cap. 16). A exemplo de Clifford adota uma postura aristocrática, não admite a ligação entre pessoas de classes diferentes:-

"Verdade que Hilda não gostava de Clifford - da sua gelada certeza de ser alguma coisa. Sim, Clifford imprudentemente estragara a vida de Constance, de modo que ela gostaria que a irmã o abandonasse. Mas, pertencendo à sólida classe média escocesa, repugnava-lhe qualquer "abaixamento" de si ou da família." (Cap. 16)

"-Você fartar-se-á dele em pouco tempo - disse ainda -, e ficará com vergonha dessa ligação. A gente não pode meter-se com criaturas do povo." (Cap. 16)


VI- TEMPO


O tempo é rigorosamente cronológico. Clifford e Constance casaram em 1917 e retornaram a Wragby no outono de 1920. Na primavera daquele ano começou o romance entre Connie e Mellors. Após Clifford ficar sabendo de tudo e de sua separação de Constance, Mellors escreve-lhe pouco antes da primavera seguinte.

"Casara-se com Clifford Chatterley em 1917..." (Cap. 1)

"Constance e Clifford voltaram para Wragby, no outono de 1920." (Cap. 2)

"A natureza, entretanto, estava em plena primavera..." (Cap. 10)

"E tinha também de esperar a primavera, o nascimento da criança, e a volta do outono. Escreveu a Constance esta carta:" (Cap. 19)

O livro cobre, portanto, o período de mais ou menos um ano. A vida das personagens parece estar condicionada aos ciclos naturais. Apesar da falta de especificação precisa das datas, em geral a narrativa é linear. Todavia, às vezes, ela transcorre aos saltos.

"As duas irmãs partiram na manhã seguinte. Constance com ar de cordeirinho pascal, encolhida ao lado da outra. Sir Malcolm não se achava em Londres, mas a casa de Kensington estava aberta.
O doutor auscultou Constance cuidadosamente, indagando de vários pormenores de sua vida." (Cap. 7)

Em apenas dois parágrafos curtos são resumidas a partida, a viagem, a chegada a Londres e a ida de Constance ao médico.

Outro recurso largamente empregado no livro é o flash-back, um efeito produzido pela narrativa feita por Mellors:-

"- Vou contar. Aos dezesseis anos comecei a namorar uma pequena filha dum professor em Ollerton, linda, realmente lida...." (Cap. 14)

Em pelo menos uma oportunidade, o narrador antecipa de maneira sucinta fatos que serão narrados adiante com mais detalhes:-

"Constance teve de sujeitar-se a um verdadeiro inquérito. Clifford, ausente na hora do chá, entrou pouco antes de cair a tempestade. "Onde está a senhora?" Ninguém sabia. A Sra. Bolton supunha que andasse a passeio pelo bosque. Mas pelo bosque com um tempo daquele?" (Cap. 16)

Na seqüência são narrados os fatos que antecedem a chegada de Constance a mansão. O inquérito começa muito depois, quando Lady Chatterley encontra o esposo:-

"Chegando ao castelo, Constance foi diretamente ao escritório do marido, furiosa contra ele - furiosa contra aquele rosto pálido e alterado, aqueles olhos salientes. E explodiu.
-Devo dizer-lhe que não vejo com que direito ousa mandar seguir-me pelos criados!
Clifford também explodiu.
-Deus do céu! Onde esteve? Ausente de casa durante horas com um tempo assim? Que diabo foi fazer neste maldito bosque? Que significa esta expedição? Horas e horas já que a chuva passou. Sabe que horas são? É de deixar um homem doido! Onde esteve, com todos os diabos?!" (Cap. 16)


VII- ESPAÇO


A principal preocupação do autor é com o espaço aberto. Há uma clara distinção entre o espaço social (construído pelo homem) e o natural. O primeiro é sempre deprimente, feio, opressivo. O segundo, ao contrário, é quase sempre belo, aprazível e saudável.

"...Mas, ai! A pouca distância viam-se as chaminés da mina de Tevershall, sempre fumarentas, e mais adiante a aldeia do mesmo nome, feia e suja com o todas aldeias das zonas de mineração." (Cap. 2)

Algumas vezes existe uma perfeita sintonia entre o espaço e o estado espírito da personagem. Outras vezes não:-

"Constance avançava. Do velho bosque lhe vinha uma velha melancolia que acalmava um pouco, que valia mais que a dura insensibilidade do mundo exterior. Era-lhe agradável tudo o que havia de interior nesse remanescente de floresta, na indizível reticência das velhas árvores, um poder de silêncio por ali; e no entanto, uma presença vital." (Cap. 6)

"A natureza, entretanto, estava em plena primavera com as campânulas a florescerem nos bosques e os rebentos das árvores explodindo chuva de gotas verdes. Não era terrível aquele fulgor da primavera em tudo, menos em seu coração gelado?
Constance sentia-se à beira do fim." (Cap. 9)

Não há muita preocupação com a descrição detalhada dos espaços fechados. Todavia, eles sempre refletem a personalidade de seus habitantes. Assim, o aleijado, dissimulado e doentio Clifford ocupa uma mansão sombria próxima à mina:-

"... Do soturno casarão de Wragby ouvia-se o barulho das perfuradeiras nas minas, o paf-paf das máquinas a vapor, o apito das locomotivas e o ranger dos vagões nos trilhos." (Cap. 2)

Mellors, um homem sincero, saudável e solitário, vive numa cabana pobre e acolhedora junto à floresta:-

"Ela foi a porta e lançou a água no jardim. Que encanto aquele lugar tão calmo, tão realmente silvestre." (Cap. 12)

"Constance foi para os fundos da cozinha, onde havia uma bomba de água. À esquerda viu uma porta, sem dúvida a da despensa. Abriu-a e sorriu diante do que ela chamava despensa: um simples armário caiado. Mas Mellors achara jeito de arrumar ali um pequeno barril de cerveja e mais mantimentos. Constance tomou um pouco de leite duma leiteira amarela." (Cap. 12)

O narrador rejeita adotar qualquer perspectiva idílica em relação ao espaço social. Isto fica mais evidente na descrição feita de Veneza:-

"...Remava com exagerado ímpeto pelo meio dos pequenos canais de hediondos muros verdes e peganhentos - os canais que atravessam os bairros pobres onde a roupa lavada pende de corda e tudo cheira a esgoto..." (Cap.17)

Logo depois da morte de Winter, seu castelo é demolido e propriedade loteada e vendida.

"Um ano depois da visita de Constance tudo estava completamente mudado. Onde se erguera o Castelo Shipley, havia uma formação de novas ruas e "vilas" de tijolo vermelho. Ninguém teria sonhado que doze meses atrás ali existiria o castelo de estuque. Uma Inglaterra destrói outra. A Inglaterra dos Winters estava no fim, morta - apenas não totalmente removida.
Que viria depois? Constance só via novas casas de tijolos a se estenderam pelos campos, novas construções a se erguerem em redor, novas operárias com vestidos de seda, novos operários de rumo ao Palácio de Dança. Essa geração ignorava completamente a velha Inglaterra. Havia um hiato na continuidade da consciência; uma parada quase americana, industrial. Que virá depois?" (Cap. 11)

A velocidade das mudanças no espaço social e suas conseqüências não passam desapercebidas ao narrador. O rompimento da continuidade dá a personagem a impressão de ausência de historicidade, criando uma nova espécie de desconcerto do mundo.


VIII- NARRADOR


O livro é narrado em terceiro pessoa. O narrador é onisciente e, no início da obra, adota uma posição francamente favorável às mulheres.

"E as mulheres tem de ceder, tão infantilmente teimosos os homens se mostram. Ou a mulher cede ou temo-las a se comportarem como crianças malcriadas que estragam tudo com seus amuos." (Cap. 1)

"...São assim os homens. Ingratos e nunca satisfeitos." (Cap. 1)

Em alguns momentos, o narrador alinha-se com as personagens, ou seja, partilha as mesmas sensações que elas:-

" Essa inesperada brutalidade consternou Constance. Ouvir aquilo, quando ainda se achava sob a impressão dum prazer acima de qualquer descrição!... Como a maioria dos homens de hoje, ele havia "acabado" muito no começo - o que força a mulher a passar à ativa." (Cap. 5)

E não só emoções, o narrador também partilha os mesmos ideais que suas personagens:-

"Vivia tão alheado de tudo, tão divorciado da Inglaterra que era realmente Inglaterra; tão radicalmente incapaz de situar-se, que ainda pensava bem de Horácio Bottomley. Sir Geoffrey defendia a Inglaterra de Lloyd George, como seus antepassados defenderam a Inglaterra e São Jorge: e nunca percebeu que havia uma diferença. Dêsse modo, ia derrubando as velhas árvores dos parques na firme intenção de salvar a Inglaterra." (Cap. 1).
Vê-se, portanto, que o narrador critica o esforço de guerra do pai de Clifford adotando a mesma perspectiva de Connie para quem:-

"...A própria guerra parecia-lhe coisa ridícula." (Cap. 1)

Pouco antes do final do texto, o narrador entra em contradição. No capítulo 16 Constance confessa para a irmã que está grávida. No seguinte, o narrador afirma que ela não falara a ninguém de sua gravidez.

"-Nunca. Além disso, estou grávida dele." (Cap.16)

"Constance não falara a ninguém da sua gravidez, nem a Hilda..." (Cap. 17)


IX- RECURSOS ESTILÍSTICOS


Ao longo da obra são utilizados diversos recursos estilísticos. Quanto aos recursos expressivos podemos citar os seguintes :-

Metáfora

"A guerra desabara sobre sua cabeça um teto, e a moça via claro que tinha de viver e aprender." (Cap. I)

"Foi nos últimos tempos que o ferro e o carvão devoraram o corpo e a alma desses homens." (Cap. 11)

Através destas metáforas o narrador significa o impacto ocorrido na vida de Lady Chatterley e o das mudanças econômicas na vida das pessoas.

Elipse

"...Entretanto, as mulheres a ele se entregavam às vezes. Até inglesas." (Cap. 3)

"Até inglesas" ao invés de "Até as inglesas"

Comparação

"... Além disso, lembrava alguma coisa nadando de um lado a outro - como ratos num rio escuro." (Cap. 3)

Antítese

"...Tão fortes na sua fragilidade!" (Cap. 8)

É óbvio que as idéias de força e fragilidade são antitéticas.

"Só uma coisa subsistia: um estoicismo teimoso e o prazer de ostentá-lo." (Cap. 6)

A propósito do Estoicismo, Bertrand Russel informa que dentre seus princípios figura o seguinte:- "A virtude consiste em uma vontade que está de acordo com a natureza" . Como a ostentação repugna à natureza, segue-se que não é uma virtude estóica e a frase é antitética.

"Clifford e a sua anarquia conservadora." (Cap. 17)

A inexistência do poder institucionalizado (anarquia) é incompatível com a idéia de manutenção do status quo (conservadorismo).

Prosopopéia

"...Também as árvores esperavam; esperavam obstinadamente, estoicamente, exalando de si um poder de silêncio." (Cap. 6)

"Carvalheiras veneráveis erguiam seus troncos, enegrecidos pelas chuvas, lançando para todos os lados a galharada audaciosa." (Cap. 8)

Árvores não são obstinadas, estóicas ou audaciosas. Estas são qualidades humanas.

Sinestesia

"Caminhava com dificuldade, embaraçada pela tranqueira vegetal, colhendo aqui uma primavera, ali uma violeta de perfume gelado." (Cap. 8)

"Constance obedeceu. Tomou a vela e subiu - e ele apalpou-lhe as ancas com os olhos." (Cap. 16)

No primeiro fragmento o narrador mistura olfato e tato, no segundo o tato com a visão.

Metonímia

"Muita frialdade naquele ponto, e nenhuma nota colorida de flor a alegrar os sombrios." (Cap. 8)

O autor designa o substantivo (bosques) pela sua qualidade omitindo-o

Hiperbole

"...Constance sentia-se velha de milhões de anos." (Cap. 10)

Anáfora

"...Sim, Paris era triste, uma das cidades mais tristes do mundo, na sua sensualidade mecânica, na eterna caça ao dinheiro, ao dinheiro, ao dinheiro, apenas não sabia ser bastante americanizada ou londrificada para ocultar o seu cansaço num ringir mecânico!" (Cap. 17)

"...Constance só via novas casas de tijolos a se estenderam pelos campos, novas construções a se erguerem em redor, novas operárias com vestidos de seda, novos operários de rumo ao Palácio de Dança." (Cap. 11)

Onomatopéia

"Constance ouviu o toque-toque dum pica-pau; depois o barulho do vento suave e misterioso entre as larias." (Cap. 13)

"...ouvia-se o barulho das perfuradeiras nas minas, o paf-paf das máquinas a vapor... (Cap. 2)

publicado por Paula Valentina às 03:21

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Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Nabokov: da culpa ao crime

 
 

Wladimir Nabokov, o célebre autor de Lolita, romance que viria a popularizar a expressão ninfeta, era ou não um pedófilo (fixação sexual em crianças)? Bem, em sua biografia não existem indícios claros de que ele houvesse algum dia chegado aos finalmentes com alguma deliciosa pré-adolescente. Mas certamente ele era um voyeur (fixação na visualização da sexualidade) de ninfetas, caso contrário não conseguiria chegar a uma descrição como a que seu personagem Humbert Humbert faz, ao ver sua Lolita pela primeira vez:

" os ombros frágeis, cor de mel, as costas flexíveis, nuas e sedosas, os cabelos castanho-avermelhados. E, como se eu fosse a aia de uma princesinha de conto de fadas (perdida, raptada, descoberta em andrajosos trajos ciganos através dos quais sua nudez sorria para o rei e seus cães de caça), vi o encantador e retraído abdômen, e as ancas infantis, com a marca crenulada deixada pelos shorts..."

É interessante observar que Nabokov não assumiu seu voyeurismo pedófilo com tranqüilidade. Antes de publicar o romance Lolita, ele escreveu um conto onde o narrador é castigado por sua ousadia, e acaba por ser linchado por uma multidão furiosa. Em Lolita isso não chega a acontecer, embora o narrador também pague pelo crime de assassinar um outro pedófilo que lhe rouba a nymphet. Vale a pena ler o livro, que é, antes de qualquer coisa, grande literatura.

publicado por Paula Valentina às 22:37

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D. H. Lawrence

 

David Herbert Lawrence, que viria a ser universalmente conhecido como D. H. Lawrence, nasceu na aldeia de Eastwood, no Reino Unido, em 1885.

Sua obsessão por mulheres, sexo e amor revelou-se desde cedo. Embora ele custasse a se decidir sobre a quem amar, tendo perdido a virgindade só aos 23 anos, conseguiu traduzir esses temas numa obra literária magnífica.

Desde seu primeiro romance, de 1911, O pavão branco, Lawrence mostra-nos o amor como uma força da natureza, as paixões como redemoinhos que carregam os fracos seres humanos, e as mulheres carregando o destino dos casais.

As mulheres de Lawrence são decisivas para a existência dos homens, de forma positiva ou não. Elas são, segundo ele, o angelical e o animal da natureza encarnados no humano.


A segurança de um par de seios

Ao perder a mãe, Lydia Lawrence, em 1910, o escritor sentiu-se tão inconsolável a ponto de romper com a noiva, Jessie, alegando que ninguém poderia "possuir sua alma", que fora dada à mãe. Esse radical estado de espírito irá mudar quando Lawrence encontrar Frieda, uma aristocrata prussiana, casada e com 3 filhos.

Os dois apaixonam-se. Ela larga o marido e as crianças, e o novo casal vai para a Prússia, onde se casa em 1914. Frieda era uma loira de olhos verdes, e a opulência dos seios encantava Lawrence, que escreveu "entre seus seios é meu lar".

Tranqüilizado pelo amor, no ano seguinte Lawrence publica O arco-íris, romance que a crítica classificou de "nauseabundo". A polícia apreendeu os exemplares do livro por ordem de um tribunal. O livro foi considerado obsceno, apesar de não conter uma única palavra de "baixo calão". O editor desculpou-se por haver publicado o livro.


O ser fundamental e elementar

Lawrence julgava que o sexo era o nosso ser fundamental. Isso está expresso em seus livros. No Arco-íris ele assim se coloca numa trama em que os personagens agem acima das convenções sociais, conforme seus desejos.

As paixões não escolhem gênero ou faixas etárias em seus romances. Assim, a jovem casada e grávida torna-se amante da professora de música, e a matrona apresenta o sexo para o adolescente. Tudo isso era demais para o início do século na Inglaterra. Lawrence recusava-se a assumir a postura do pornógrafo, publicando livros com pseudônimo para um público essencialmente masculino e com finalidades apenas de excitação sexual. Ele estava discutindo a sociedade humana.


Culto ao falo

Lawrence ambicionava criar um moderno culto ao falo, mas sem que isso implicasse em opressão à mulher. Esse culto não deveria, segundo ele, voltar-se ao pênis masculino, mas a um grande Falo Universal, símbolo da fertilidade criadora.

A mulher seria o elemento de ligação que transformaria o pênis em Falo Universal. Em sua teoria homem e mulher são basicamente diferentes, mas devem buscar o perfeito equilíbrio entre masculino e feminino.

Lawrence caminhava para escrever um grande romance erótico, mas antes deste ápice criou outra obra prima, Mulheres apaixonadas, em que dois casais são confrontados diante dos dilemas da paixão e um deles fracassa, por não encarar de frente sua realidade sexual como principal meta. O escritor achava que ninguém escapa a esse confronto essencial.


O sexo no jardim

Vivendo na Toscana, perto de Florença, onde instalou-se com Frieda, Lawrence começou a escrever sua obra máxima em 1926. O amante de lady chatterley é a história de Constance Reid, uma bela mulher que se casa com Clifford Chatterley, um oficial inglês em licença. Após a lua de mel ele é chamado para uma das frentes de batalha da Primeira Guerra. Retorna inválido, numa cadeira de rodas.

Sir Chatterley é um homem refinado e compreensivo. Vendo a situação da jovem esposa, autoriza-a a encontrar um amante que ela "deseje de todo o coração". Inicialmente Constance opta pela castidade, mas com o tempo se interessa por Oliver, empregado da mansão, que vive numa cabana no parque que envolve a propriedade.

Oliver é baixo, feio e rude, mas tem para ela a força da natureza. Ao encontrá-lo para transmitir ordens do marido, acaba por entregar-se a ele. Suas relações com o empregado são arrebatadoras. A irmã de Constance tenta levá-la a Paris para que esqueça o amante. Mas ela volta mais apaixonada. Fazem amor sob a luz da lua, no jardim. Ele diz, de forma rude, que é seu fodedor. Ela enrubesce com a palavra rude, mas ele diz que não há vergonha nisso.

O desfecho se dá com Oliver deixando o emprego para tornar-se operário em Sheffield. Constance descobre que está grávida e confessa ao marido. Este imagina que o filho pertence a Duncan Forbes, um pintor que eles haviam hospedado. Ela sente horror pela condescendência do marido e abandona a casa para refugiar-se junto à família.

Essa foi apenas a primeira das 3 versões que o romance teve. Nas demais, ele descreve toda a força do amor sexual dos dois com uma intensidade crua, embora elegante. Constance reflete sobre o pênis do amante com as seguintes palavras: "Sim, num homem verdadeiro, o pênis tem vida própria, e é um segundo homem dentro do homem."

Lawrence glorifica a alegria dos corpos durante o sexo, o que para ele é um das leis eternas da natureza.

Quando o romance ficou pronto, Lawrence fazia tratamento de saúde na Suíça, já desenganado pelos médicos. O livro apareceu em 1928 e a imprensa o qualificou de "uma latrina". Um dos matutinos afirmou que "os esgotos da pornografia francesa não tinham produzido nada de comparável". Lawrence defendeu veemente sua criação magnífíca publicando um A propósito de O amante de lady Chatterley, em que acusava seus críticos de evitarem a "sexualidade vital".

D. H. Lawrence morreu tísico, em 2 de março de 1930.

publicado por Paula Valentina às 22:36

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Henry Miller

 

Um militante contra a hipocrisia

Poucos escritores causaram tanto escândalo em seu tempo, e mesmo além dele, quanto o americano Henry Miller. Nascido em 1891, Miller escolheu Paris para viver, mas não como os bem sucedidos autores que residem na Cidade Luz, usufruindo da fama. Henry Miller tinha quase 50 anos quando publicou seu primeiro livro, Tropic of Cancer, uma narrativa confessional como as de Santo Agostinho ou Rousseau, mas baseada em suas experiências com as prostitutas francesas.

Nenhum escritor soube valorizar tanto a putaria como ele. Havia um rito sacro e mistérios cósmicos em cada trepada descrita. O sucesso foi imediato, e a censura também. O livro foi proibido em várias partes do mundo, e foi o que o promoveu, é claro. Na década de 30 a descrição crua do sexo, embora apaixonada e sincera, feria suscetibilidades. O livro passou a ser referência para masturbações adolescentes, e sua dimensão artística foi sufocada. Mas Miller chegara para ficar, e logo lançou "Tropic of Capricorn".


A sexualidade desenfreada

Para Henry Miller, descrever os homens em seu sexualismo extremo era uma obrigação da literatura moderna, conforme suas próprias palavras numa entrevista: "na realidade pouca revolta de qualquer espécie é permitida ao homem moderno. Ele já não age, ele reage. Ele é a vítima que, afinal, veio a ser apanhada na sua própria armadilha".

Em seus livros, Miller dá ao sexo uma dimensão sacra. Os personagens chafurdam na lama, são descritos com franqueza quase pornográfica, mas com tal naturalidade de estilo e humor que assumem uma grandeza indiscutível. A crítica literária européia saudou Miller como a culminância de uma corrente literária que remonta ao século XVIII.


A crucificação encarnada

Henry Miller tornou-se um clássico absoluto quando publicou a trilogia "Sexus, Plexus, Nexus", que ele chamou "A Crucificação Encarnada". Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Sobre seu processo, declarou: "fiz uso, ao longo desses livros, de irruptivos assaltos ao inconsciente, tais como sonhos, fantasia, burlesco, trocadilhos pantagruélicos, etc, que emprestam à narrativa um caráter caótico, excêntrico, perplexo". Tudo isso é verdade, mas também o é que Miller vivia na pândega e descrevia isso.


Bancarrota espiritual

O que faz afinal com que a literatura de Henry Miller seja forte, crua, sem ser vulgar, pornográfica? Aliás, essa é uma matéria para se colocar na discussão: o que é pornografia? Ou ainda, o que configura um texto pornográfico? Bem, Miller costumava dizer que vivemos numa bancarrota espiritual. O que ele queria dizer com isso? Que o homem se afastara de sua dimensão profunda, e só a liberação da carne poderia conduzir-lhe de volta ao convívio com a própria alma. As prostitutas, por rifarem o seu corpo com tal desprendimento, seriam as mais puras porque nada mais lhes restava que não a dimensão espiritual. Uma tese ousada, mas que Henry Miller, o americano boêmio que rolava pelas ruas de Paris, defende com brilhante prosa de ficção.


Os discípulos

Henry deixou uma legião de discípulos em todo o mundo, existe até um grego que mora na rua Prado Júnior, no Rio de Janeiro, chamado Alexei, se não me falha a memória, que tem vários livros em seu estilo, e foi casado com Elke Maravilha, sua musa nos romances. Mas outros mais famosos também admitem a filiação estilística, o poeta e prosador inglês Lawrence Durrel é um deles. Escritor de alto nível, é mais sofisticado do que Miller, e escreveu uma obra prima chamada "O Quarteto de Alexandria". Outro que lembra muito Miller é Charles Bukowski, americano que viveu também na sarjeta do sexo e do álcool.

Enfim, o mundo nunca mais será o mesmo depois de Henry Miller. Vale a pena lê-lo, ainda hoje.


O que há para ler:

A maioria de seus livros ainda pode ser encontrada nos sebos da cidade; são eles: Trópico de Câncer, Trópico de Capricórnio, Sexus, Plexus e Nexus, Sexo em Clichy e Pesadelo Refrigerado (impressões dos EUA).

publicado por Paula Valentina às 22:35

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Domingo, 9 de Setembro de 2007

Tunning das raparigas...

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publicado por Paula Valentina às 23:55

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